Ínclitos

É preciso coragem para se comprometer, para dizer o que se vê e o que se sente, sem medos nem manuais. Só vale a pena ser jornalista se for – como cantou Torquato Neto – para "desafinar o coro dos contentes". Fernando Evangelista

O que o futuro reserva?

Foto: Andrey Lehnemann

Foto: Andrey Lehnemann

Por Andrey Lehnemann

17/6: um dos dias mais significativos da recente história política no Brasil. Quando milhares de pessoas invadiram o Congresso Nacional para retomar sua casa e reivindicar que o povo fosse ouvido. O sorriso, o choro e a emoção de muitos eram nítidos e intensificados pelos inúmeros que gritavam com orgulho que eram brasileiros. O processo que se instaurava era tão curioso que ninguém conseguia encontrar lógica no que estava acontecendo: não havia como taxar, manipular ou prever o porquê de tudo aquilo. Era somente emocionante observar a manifestação pacífica de jovens que clamavam por uma política mais justa e, principalmente, sem desigualdades.

18/6: as reivindicações das manifestações começam a interferir na política de vários estados, que agora respondem as exigências. Momento em que tarifas de ônibus são revogadas ou alteradas em diversas cidades; o governo de Tarso Genro, no Rio Grande do Sul, adere cobranças e se posiciona oficialmente contra a PEC 37, o estatuto do nascituro e a “cura gay”. Florianópolis leva mais de 15 mil pessoas para as ruas buscando o fim da máfia das catracas, o passe livre e uma marcha menor que exigia o fim da corrupção. 3 horas de caminhada pelos principais pontos da cidade que contava com os aplausos de quem passava pela manifestação. O protesto é pacífico, mas outras cidades não seguem a mesma cartilha e há um clima de confronto.

20/6: é tido como o dia D, o dia do basta, onde todo o tipo de sofrimento é levado às ruas. Milhões de cidadãos saem de suas casas com as mais variadas placas e assuntos, os gritos de sem partido se intensificam e alguns jovens se limitam a apenas fazer parte do movimento, sem saber definitivamente a razão. Grupos de dança, teatro, mímicos, casais, crianças, idosos, ricos, classe média, pobres e cadeirantes passam a evidenciar a heterogenia do movimento, mas apontando para um discurso desconexo e contraditório. Alguns gritam “fora Dilma”, outros esbravejam sem muito idealismo contra a “corrupção” e até cartazes com “1964, sim” e berros de Anauê são ouvidos em algumas cidades; as ruas são tomadas por lixo: desde cartazes rasgados até latas de cerveja; os remanescentes do MPL e muito dos jovens idealistas que estavam na terça-feira procuram unificar a mensagem anticonservadora, mas a falta de liderança vence qualquer diálogo – assim, depois de 5h30min de ponte parada em Florianópolis, a polícia militar finalmente é obrigada a agir para dispersar os poucos que bradam palavras de ordem. O movimento passa a perder a força, o anarquismo utópico que levava as pessoas às ruas sofre por atos de aproveitadores e a esquerda temerosa denuncia um possível golpe.

É difícil refletir sobre tão diferentes acontecimentos em menos de uma semana. O que antes aclamávamos como um momento de puro anseio popular, que até podia não ser organizado, mas tinha uma busca comum, agora ficamos com medo de seu desfecho. Suas reticências, como uma colega afirmou. De certa forma, estudar a história e analisá-la em tempos diferentes ou até observá-la de outro lugar é muito mais fácil do que ser sujeito dela. Há diferentes pontos de vista para o que está ocorrendo no Brasil nos dias atuais e poderemos ser mais esclarecidos sobre todas as suas ramificações num futuro próximo. Podemos, ou seja, apenas supor. E isso é perigoso. Um discurso inflamado que assinale para um golpe militar em curso não irá trazer nada mais do que caos social. Defender no Senado a abolição de partidos políticos oficiais, como o senador Cristovam Buarque fez nesta sexta-feira, só piora as coisas. Não há como dizer com assertividade o que o futuro nos reserva, mas podemos interferir a favor da mesma democracia que muitos antes lutavam nas ruas.

Anúncios

Que antidemocracia?

Foto: Alex Silva/Estadão

Foto: Alex Silva/Estadão

 

Por Andrey Lehnemann

Há múltiplos pontos de vistas que podemos tecer sobre a política de desmoralização que ocorria em São Paulo até os acontecimentos da quinta-feira, 13, e acerca das manifestações que ocorrem em grande parte do país, que agora até o mais limitado intelectualmente sabe que não se trata de um novo aumento na tarifa. Embora o foco esteja em cenários e estados diferentes, mantém-se os mesmos discursos pró-militarismo – esse grupo que só é lembrado quando a população o aclama por bater em supostos vândalos, geralmente estudantes – e a interferência do monopólio midiático junto aos já exaltados partidarismos em mais uma manifestação legítima. O “atenuante” de ontem foi reconhecer que a esquerda brasileira não aceitou a brutalidade policial e reconhece a omissão de seu prefeito eleito.

Quando Haddad e Alckmin se uniram em um mesmo discurso, infelizmente, não era motivo para celebrar a esquerda e direita se unindo num único ideal, mas a ultrajante conclusão de ambos os lados aplaudir a repressão policial nas ruas e incitar o ódio a estudantes constantemente chamados de vândalos em movimentos democráticos. No dia em que editoriais eram publicados requisitando maior força de ataque da polícia militar – isso mesmo! – a noite não poderia ser de muita expectativa. Nem mesmo quando estudantes desarmados ofereciam flores e gritavam paz nas ruas, os policiais deixaram passar em branco a ordem de bater em quem estivesse na frente – incluindo, vejam só, jornalistas que trabalhavam para os mesmos veículos que achavam a PM branda demais.    

Querendo ou não, em qualquer parte do país, o movimento Tarifa Zero nunca foi bem recebido: afora a força estudantil, governantes e empresários acabavam tendo que enfrentar a oposição contra seus benefícios estipulados nas novas propostas, que afetavam muito mais a classe trabalhadora. Além disso, a maneira de evitar esse aspecto era única: ordenar PMs a prender e atacar qualquer um que estivesse em sua frente – o que não foi tão evidente nas últimas feitas em Florianópolis por falta de manifestantes e pelo caráter que as sequelas de 2005 deixaram na população. Contudo, sempre claríssimo na maneira de agir dos policiais, nitidamente despreparados para lidar com esse tipo de situação, quando saíam literalmente à caça.

O que hoje acontece no Brasil é um retrato de uma população que cansou de apanhar, que cansou de favorecimento empresarial e quer que as coisas mudem. No ano de 2005, o meu amigo, professor e colega, realizou um documentário chamado Amanhã Vai Ser Maior. Espero que esse seja o começo desse futuro. As manifestações que surgem em Porto Alegre, Alagoas, Goiânia, Rio de Janeiro, São Paulo e, em breve, Florianópolis poderão ser vistas como o grande ponto de ebulição do basta. É tempo de mudança. E essa mudança, talvez, começará quando a população também observar que os que mais levantam a bandeira de acusação da antidemocracia, às vezes, são os mais antidemocráticos.  

A tal inspiração

Por Andrey Lehnemann

Estava piscando para mim.

Aos poucos, eu conseguia desnudá-lo, aproximar-me e prometer – até para mim mesmo – mil saídas e respostas. Todas elas oferecidas a cada dígito e frase completada. Conseguia ser atrevido e concluir cada sílaba que me oferecia promessas de algo finalizado. Um ponto final. Não uma exclamação ou, deus me livre, uma interrogação.

Livre de incertezas, ele me levava para lugares que jurava impossíveis. Éramos amantes e inimigos. Dois lados de uma mesma moeda. O intermediário e, ele, uma espécie de musa. Aquele que me fornecia a palavra tão almejada, mas o infiel que me deixava impotente. Minha vida, mas meu tormento. A inspiração depositada toda nele, isso mesmo, minha paz: o meu cursor.

Insuficiência

Por Andrey Lehnemann

Ando recebendo notícias do meu coração. Ele não está nada bem. Cansado, velho, apreensivo e sem a mesma adrenalina de anos atrás. Claro que ele sempre foi assim, mas ele era autodissimulado. Acreditava que nada podia o ferir ou que todas as batalhas poderiam ser vencidas. Pobre coração. Além de tudo era egocêntrico. Sempre achou que todas as músicas que continham o seu nome eram específicas para ele. Falava comigo de uma maneira muito mais intensa quando gostava de uma delas. Até bilíngue virou, vejam só. Descobriu que tinha outro nome em países distantes e também passou a atender. Batia mais forte sempre que ouvia uma música dos Bee Gees, How Can You Mend A Broken Heart. Acompanhou-me em todas as batalhas travadas, lamentou as oportunidades perdidas e ficou tão inquieto quanto eu nos momentos de traição ou barbaridades.

Nunca esperou, contudo, que fosse ele o que mais sofreria. Sempre pensava que o intestino ou até mesmo minha cabeça daria os primeiros sinais de fraqueza do meu corpo. Não ele, que já havia passado por tanto. Ele tenta falar comigo e pedir orientações sobre as novas condições estabelecidas e procurar voltar a andar no ritmo adequado. Passou a travar uma batalha contra o vingativo fígado. Enlouquece sempre que o outro pensa em passar dos limites. Eu o sinto preocupado e agitado. Sem a mesma paixão ou entrega de outrora para as situações que andamos vivendo.

Ando recebendo notícias de meu coração. E ele está muito fraco. Às vezes penso que ele não acorda junto comigo. Fica lá, dormindo; esperando não ser incomodado. Procurando uma forma de não precisar voltar a funcionar junto com todo o resto do meu corpo. Quer ser alguém à parte. Cada vez mais solitário. Tristonho. Vencido. Com batidas descompassadas.

Ando recebendo notícias do meu coração. E não são nada boas.

Velas

Por Andrey Lehnemann

Havia faltado luz naquela noite e, quase como num passe de mágica, a família se reunia ao redor de sua lareira para contar algumas histórias. O problema era que, sem contar os problemas dos filhos no colégio ou o que havia ocorrido na vizinhança, os assuntos se esgotavam muito rápido na casa dos Santana. Para piorar, a família ia bem nos negócios. Ninguém passava dificuldades e os velhos conselhos de Nelinho não poderiam ser admirados ao calor do fogo. Sem televisão, as discussões entusiasmadas sobre o mais novo atentado em solo internacional não era discutido com um ou outro argumento relevante por falta de informações novas. As crianças eram as mais animadas para ouvir o pai contando sobre quando serviu no exército, apesar de não ter enfrentado nada de muito significante, ou suas opiniões sobre os políticos que marcaram sua época. Elas adoram essas coisas, pensava Nelinho. Naquela hora, porém, os pequenos reivindicavam alguma história de terror.

– Nos surpreenda, papai. As histórias do colégio são as mesmas de sempre. Temos a loira, o compasso, a menina do corredor. Queremos nos assustar. Novidade, pai. Sem aquelas que você ouviu no seu tempo.

– Hum – pensava Nelinho – uma história de horror? Já não tenho mais tantas no meu arsenal. A não ser que queiram ouvir a vez que quase perdi a sua mãe. Aquilo, sim, foi terrível e assustador.

Aquilo foi o bastante para Carolina sorrir do outro lado e também fazer coro às crianças:

– Conte a elas aquela história de seu amigo, Ne.

– Ah, eu não sei se passou tempo o bastante para um dessas. Além disso, eu nem vou me lembrar dela com tantos detalhes.

– Conta essa, pai.

– Sim, conta.

– Está bem. Mas nada de fugir para nossa cama mais tarde com medo dos trovões ou algo do tipo, hein?!

– Prometo.

– Eu também.

– Certo.

– Acho que deveria começar com “Era uma vez”, já que, como o escritor John Connolly sentenciou uma vez, todas as histórias deveriam começar assim. Portanto:

“Era uma vez um homem por volta de seus quinze anos que decidiu fazer uma das piores coisas que poderíamos inventar nessa idade: apaixonar-se. Chamava-se Felipe. Seus pais haviam se separado já havia cinco anos e ele era obrigado a comparecer judicialmente uma vez a cada quinze dias na residência do pai, que morava em uma residência afastada em São Miguel. Naquela época, as coisas não eram tão desenvolvidas quanto agora e as casas eram um pouco mais precárias: os muros eram quase nulos, a maioria delas era de madeira, quando alguém chegava era possível ouvir os passos ao redor da casa, pois não era bem um jardim, mas um acumulado de britas que formava a entrada. Felipe odiava o local. Não gostava de ir para lá e sempre via coisas estranhas quando acordava no meio da noite. Certa vez, quando seu pai e madrasta viajaram, viu um grande vulto na sala. O vento era outro que mexia com a mente do rapaz. Não tinha amigos no local até a chegada de Roberta, uma garota que se mudara também há pouco. Era óbvia a atração dos dois, principalmente, por tratar-se de duas figuras deslocadas no meio em que viviam. As idas para São Miguel não afetavam mais tanto Felipe e ele até esperava moderadamente as visitas, apenas para conversar com Roberta. No alto de seus dezessete, os dois foram para a cama pela primeira vez e ela comunicou algumas semanas depois que estava grávida. A gravidez apavorou Felipe, que pensou em fugir das responsabilidades, mas assumiu todas as funções que se esperavam dele. Nem chegaram a completar três meses e Roberta perdeu o bebê. Mas os pais de Felipe eram abonados e a paixão quase louca da garota fez com que mentisse e insistisse que ainda estava grávida. O rapaz, naturalmente, descobriu semanas mais tarde e nunca mais olhou para ela. A moça enlouqueceu. Não quis viver sequer um só dia longe de seu amado. Naquela noite, Roberta se dirigiu pela primeira vez a um centro satânico que descobriu na cidade de São Miguel. O local havia um cheiro meio estranho, enjoativo, várias raízes de plantas podiam ser vistas à volta dos frequentadores e havia o som constante de uma clarineta que daria calafrios em qualquer um. Ela nunca mais tentou nada com Felipe, mas nunca o esqueceu. Foram se encontrar anos mais tarde, quando os dois estavam fazendo a mesma faculdade. Eu era amigo dele na época e de sua namorada. Ele era um pouco reservado quanto à história de Roberta e nunca fui bem informado do que havia acontecido para ele não visitar mais o pai. Eu me lembro detalhadamente da primeira noite que a vi. Estava chovendo e nos divertíamos no bar perto da faculdade, onde reuníamos nossa turma. Felipe, então, do nada, ficou branco. Como uma parede que ainda estava sem acabamento. Até havia algumas manchas, ali no meio, que lembravam um rosto, mas a branquidão desviava a atenção do resto. Ela veio nos cumprimentar naquela noite. Meu amigo havia ficado sem voz para poder fazer os devidos procedimentos de apresentação, mas isso não pareceu incomodar Roberta que logo estendeu a mão para Juliana, namorada de Felipe. Ela foi tão simpática que me lembro de não ter entendido a razão da irracionalidade de meu amigo naquela hora. Conversava alegremente com todos da nossa mesa, contava suas experiências na faculdade e sua saída da antiga casa. Ainda elogiava muito Juliana, principalmente, a textura e cor do seu cabelo, alisando-o. Minha amiga recebeu um telefonema naquela noite. Só se ouvia a respiração pesada no outro lado da linha. No outro dia, Roberta ligou para ela e sentenciou que era melhor ela ficar longe de Felipe enquanto era tempo. Juliana perguntava para ele o que estava acontecendo, mas ele sempre desconversava. Começou a ter pesadelos de madrugada. Nos sonhos, ela sempre era perseguida por Roberta que era vista com um grande amuleto proferindo maldições contra Juliana e indo embora com Felipe. Nunca irá ficar com ele, era o que ela nos dizia ouvir. Os gritos agudos e sonoros de Roberta dentro dos sonhos passaram a atormentar Ju. Ela entrou em depressão, não dormia mais do que uma hora ou duas com medo de seus sonhos, e não saiu mais conosco. Só fui descobrir depois porque nossas festas não contavam mais com a presença dos dois. Nas semanas seguintes, os pesadelos foram se intensificando: espécies raras de anfíbios e outros bichos peçonhentos foram sendo inseridos aos sonhos de Juliana, que nessa altura já andava com olhos vermelhos pela falta de sono. Às vezes, encontrava-se em um grande ninho de cobras, algumas saindo de sua boca e seus olhos – momento em que acordava; outras delas, pensava estar acordada e via Felipe a observando com suas pálpebras minimamente levantadas; que dava uma sensação de desconforto. Acordava quando via Roberta parada na porta. A tia de Felipe também era mística e chegou a ligar para os dois perguntando se tudo estava conforme os conformes. Disse que alguma força de magia negra estava sendo usada contra ambos e que ela tentava inverter o feitiço. Sentenciou que, até o final do ano, caso obtivesse êxito, tudo voltaria ao normal. Perguntou se alguém não havia levado algum objeto pessoal de minha amiga para poder usar de vingança. Juliana sempre foi cética, mas não sabia mais no que acreditar e lembrou-se do episódio com as mexas de cabelo no dia que conheceu Roberta. Nunca havia visualizado Felipe tão inquieto. Eu e meus amigos fomos saber mais sobre a história cerca de dois ou três anos mais tarde. A tal garota havia feito uma grande maldição que não atingia Felipe, mas todos que o amavam. Seu pai morreu em sua antiga residência em São Miguel, o que fez Felipe nunca mais retornar ao local. E a relação de Juliana e Felipe nunca mais foi, de certa forma, a mesma”.

– O que houve com eles, pai?

– Separaram-se alguns meses depois.

– E os pesadelos?

– Terminaram. Mas ela precisava desse afastamento definitivo para voltar a ter uma vida. A coisa mais fatal que pode existir é o amor.

– Mas pai, e Roberta?

– Aí está o grande fato da história: ela sumiu. Ninguém sabe o que aconteceu com ela. Alguns de nós fomos tentar desvendar seu paradeiro, mas a casa de São Miguel está abandonada e ninguém nunca ouviu falar da menina. Na Faculdade, ela não apareceu mais e eles não querem dar maiores informações sobre o caso.

– Nossa.

– Pois é. Essa história me dá uma espécie de abatimento até hoje.

– Conta outra história, papai.

– Não, olhem a cara de sua mãe. Já está na hora de irem para cama. Vamos lá.

A luz voltou no exato momento em que a chama da última vela começava a perder o seu tom. Naquela noite, Nelinho sonhou algo que há muito tempo não sonhava: estava em um grande ninho de cobras.

Padrões

Por Andrey Lehnemann

Há alguns tipos de convenções que são as piores que podemos passar. Entre elas, existem umas três que me causam profunda agonia: a primeira delas, receber visitas inesperadas na sua casa como se fosse algo extremamente agradável. Já devem ter passado por isso.

– Ô, senhor de casa. Viemos incomodar vocês um pouco!

– Imagina. Para nós é uma honra recebê-los.

Não, não é. Nem uma honra, muito menos compreensível ser tirado da cama em um domingo para socializar com pessoas que vemos durante toda a semana. Se não ligaram, não os queremos aqui. Caso liguem, arranjaremos uma desculpa. Um colega meu afirmava que havia duas coisas profundamente nefastas que levavam a democracia para o buraco: o preconceito e as visitas indesejadas. Gosto de imaginar que o escândalo de Collor só foi possível ser denunciado pelo irmão porque o Presidente estava na “casa da dinda” cuidando de suas coisas e foi atender mal humorado um pedido de seu familiar indesejado. Um “não o quero aqui, fora” que teria sido respondido com um impeachment. Quem sabe não é por isso que estabelecemos essa norma?

A outra, ainda mais mortífera, são as pessoas que, de alguma forma, acreditam piamente que são amigos queridos e deveriam contar sobre todos os traumas de sua vida. Um aceno educado que se transforma em horas inconvenientes. Geralmente, são aqueles que só conseguem falar de doenças e morte. Você está andando calmamente na rua, otimista, quando encontra este conhecido que a última vez que o viu foi num velório tirando fotos da placa do cemitério como recordação.

– Nossa, há quanto tempo?

– Pois é.

– Como está? Tudo bem?

– Não, não está. Meu pai morreu ano passado, câncer. Minha irmã se descobriu com a mesma doença, perdi minha esposa depois de descobrir ela na cama com outro, estou desempregado, a violência no bairro está grotesca, os negócios não andam para frente e faz tempo que não falo com minha filha…

Não há uma saída real neste tipo de situação. Você pode simplesmente responder com um seco: “(…) nossa, que pena. Desejo melhoras!”; conter toda a situação afirmando que sabe como ele se sente e que está em uma situação parecida – assim invertendo o caos; ou, com muito mais facilidade, pode ir embora dali sem olhar para trás e deixar claro que não o conhece e essa é a primeira vez que trocam mais do que uma ou duas palavras. Nós sempre escolhemos a “opção mais infeliz”: ficar e escutar com empatia todo o resto. Mesmo que a pessoa esteja claramente exagerando e esteja apenas carente de atenção, ficamos e ouvimos tudo o que ela tem para falar com a mais absoluta compreensão.

Há uma terceira, por sua vez, que é relativa às amizades. Quando você vai a um evento ou um jantar com os seus amigos, mas tem duas ou três pessoas que você claramente possui problemas, contudo, não diz nada para evitar climas pesados. São só algumas horas, você pensa. Horas que se transformam em dias, semanas, meses, e, finalmente, num convívio diário. Arrepende-se, mas é tarde para falar algo.

No final, sempre acabamos nos envolvendo em padrões de comportamento, conduzindo cada situação como estabelecem as normas. Há outros padrões que também me incomodam, mas estes são mais amenos: repetições é um deles, não a repetição textual que só gera uma indisposição visual, mas aquele que trata de insistir em uma ideologia descabida – na minha rotina, esses casos geralmente dizem respeito a partidos políticos e a corrupção; o conhecimento superficial e a moda do “ter que saber de tudo” é outro; assim como, o padrão noticioso que está sendo dominado cada vez mais por temas impróprios e inconsequentes. A própria crônica atual possui um padrão e suas normas e convenções. Seja nos nomes carimbados que nos acostumamos ou na forma da escrita. Até esse diálogo que crio aqui acaba sendo um padrão e, muitas vezes, caio em repetições. Sou um humano, afinal. E nós erramos. É um padrão.

Quem gostaria de ter nascido há 10 mil anos?

Por Andrey Lehnemann

Recentemente, li sobre as estimativas de mortalidade sendo influenciadas pelo simples ato de tomar café. Sim! O café pode retardar a sua morte, segundo um novo estudo da Universidade de Medicina da Grécia. O grego, claro. Das únicas coisas que a Grécia pode se vangloriar atualmente é… o seu café, além da idade longínqua de seus habitantes. O estudo provou que as pessoas com maior expectativa de vida geralmente possuíam um saudável comportamento diário, pois uma xícara de café grego aumentava a imunidade de seu organismo. Deveriam bolar um slogan: “Um copo de nosso café lhe oferece mais um ano de vida. Aqui quem ganha é você. Experimente kαλύτερη κατάσταση (numa tradução livre: ‘viva melhor’ ou ‘melhor forma’)”. Vejam só, para enganarmos a morte por um pouco mais de tempo, basta beber um cafezinho. Quem não embarcaria nessa?

Mas pensando bem, quem gostaria de prolongar sua vida? Afora nossos sonhos juvenis de sermos perenes e vivenciar o máximo possível, a eternidade não soa bem e já me sinto frágil só de imaginar. Perguntei para uma familiar em seu aniversário de 95 anos como se sentia com sua idade, cansada foi a resposta imediata. Apesar de ter meus problemas em pensar na morte, uma vida completa já me parece o bastante. Sem expansões ou complementos. Simpatizo com Bukowski sobre o tema, que – ao indagado sobre o que achava de morrer – sentenciou que iria até onde sua vida não se tornasse um fardo: “Quero a morte tanto quanto quero a vida!”.

Na antiguidade, os gregos acreditavam existir uma utopia que eles não podiam se aproximar, como Nietzsche aponta em um de seus ensaios: lugar habitado por um povo eterno, inalcançável. Podemos ressaltar que era algo intrínseco à época. Todavia, não ultrapassamos muito os gregos nestes pensamentos, pois é notável o quanto a sociedade ainda almeja esse tipo de sonho: não adoecer, períodos de paz e de estímulos sociais, além da tão desejada imortalidade. Não me agrada passar por épocas que não me esperavam, vivenciar novas revoluções digitais aos cento e tantos anos ou algo do tipo. Além do mais, deram-se conta de que se todos seguissem o mesmo caminho, contando com as pessoas que ainda iriam nascer, teríamos um caso sério de superlotação?!

Gosto de pensar que, assim como Hitchens, vou me orgulhar de ter vivido consistentemente uma vida de inconsistência e na minha lápide estará escrito, como pensou Miéle, que minha morte foi absolutamente contra a minha vontade; porém, abdicarei da imortalidade. Não, não irei parar de tomar café, mas recusarei o grego.

Navegação de Posts

%d blogueiros gostam disto: