Ínclitos

É preciso coragem para se comprometer, para dizer o que se vê e o que se sente, sem medos nem manuais. Só vale a pena ser jornalista se for – como cantou Torquato Neto – para "desafinar o coro dos contentes". Fernando Evangelista

Mi Colômbia

Aqui, onde o Bogotá

Mujeres si a la paz, violencias ni una mas. Assim fomos recebidos na Colômbia, tão próxima e tão distante do Brasil. Sobrevoando Bogotá, o comandante, com aquela voz de locutor de AM do interior, informa aos passageiros: “devido a um intenso temporal não é possível aterrissar”. O avião dá algumas voltas e segue ao aeroporto. Na imigração, confesso que estava com o cu na mão, não por ser a primeira viagem ao exterior, mas por ao embarcar, no Brasil, a guria da Latam ter feito maior terrorismo, pela minha identidade ser de quando tinha 12 anos e o único documento atualizado que possuia ser a CNH.

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Voltando a Guarulhos, ao despachar a bagagem, a atendente fez questão de frisar que a CNH não seria aceita como documento. “O senhor será deportado”. Caralha, que bosta, pensei. Mas foda-se. Ao menos vou dar um rolê de 4h. Todavia contra os prognósticos apocalípticos, chegando lá, onde o Bogotá, não houve problema algum. Foi um misto de cara crachá e os primeiros balbucios de um espanhol trôpego, ensaiado semanas antes no Duolingo.

Tudo lindo, entramos no país, ao menos no aeroporto. Aí veio a primeira e segunda impressão, que logo caíram por terra. Ao tentar recuperar a bagagem – que a mina, terrorista de Guarulhos, despachou direto à Cartagena, mas fez o favor de não avisar -, a atendente da Latam, que devia estar num mau dia – pensei que ia tomar uma bomba dela -, fez questão de ignorar o portunhol e apenas olhar com cara feia e falar algo sobre conexão. Graças a um tio que, vendo a cena, esclareceu tudo na maior boa vontade, seguimos ao saguão do aeroporto e como manda o figurino, reservar hotel, pra que? Porque né?

Parados, sem dar bandeira, é claro, SQN, na busca de um app que resolve-se a treta, cola uma tia e manda: “estão procurando hotel?”. Em meio a cabacice e a vontade de um banho, topamos a oferta da moça. “Tenho um hotel barato, $120 mil, fica a 15 minutos daqui.

Beleza, é nóix tia. Vamos lá.

Após algumas voltas no aeroporto, com ela liquefazendo seus contatos no whatsapp, embarcamos em um carro, com um motorista muito simpático, que nos recebe muito bem e começa a falar sobre a Colômbia e perguntar sobre o Brasil. Rodamos algumas quadras, com a cidade alagada, pelo pé d’água que havia caído, chegamos a um hotel. Bizarro. Certamente foi cenário para Narcos. Uma tia, cabreira, abre um vão na porta e fala com o motorista. A única coisa que entendemos é: “não tem quarto”. Num misto de agradecimento e incredulidade voltamos ao carro.

O motorista meio sem saber o que fazer, questiona a tia do aeroporto. Neste entretempo, decidimos ir ao centro de Bogotá. Avisamos o motorista. Ele se apavora. Tenta nos dissuadir. Comenta que a cidade é perigosa àquela hora. Mas após alguns minutos de conversa, atende nosso pedido. Ainda assim, com ressalvas e recomendações de cuidado.

No caminho, a generosidade do povo colombiano, hoje conhecida no mundo todo, nos foi apresentada. O motora, que não lembro o nome, nos deu uma aula sobre a cidade, história da Colômbia e mostrou todos os pontos turísticos no caminho, parando em frente a eles e relatando uma breve história do que fora ali e como o jogo político e a guerra com as Farc e com Pablo Escobar atuaram e atuam sobre a cidade. Dando ênfase, com profundo orgulho, ao museu Simón Bolívar. “Acá se puede mirar el museo de nuestro libertador”.

Mais algumas voltas e uma gentileza sem tamanho, fomos deixados na Plaza Bolívar, onde se concentra o maior número de pombos por metro quadrado da América Latina, durante o dia, e à noite policiais. Na fachada de um dos prédios do complexo do governo uma faixa gigante expunha a frase que abre este texto. Como não havia muito para ver, pelo horário, seguimos a esmo em direção a avenida mais movimentada da capital. No caminho, vimos uma treta feia, mas feia, MMA Colômbia, entre duas mulheres, com direito à platéia, contradizendo a faixa da praça Bolívar.

Meio perdidos, sentamos em uma sanduicheria, comemos um rolê, bom pra caralho, e fomos informados pelo proprietário que havia um hotel, ali, a três passos e pelos mesmos $120 mil, que a tia miguelona queria nos empurrar em uma espelunca. O jogo estava virando, puta hotel, com um puta café da manhã, com direito a suco de Lulo, não sei o que é, não degustei-o.

A Muralha

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Em direção a Cartagena. Chegamos ao aeroporto e, como todo bom pato, caímos mais uma vez no conto do turista tanso. 130 colombianos gritando táxi, táxi, táxi …. abrindo as portas e praticamente jogando turistas para dentro do veículos. Lá fomos nós. Já saindo do aeroporto o motorista pergunta: “donde vamos?”, Casa Torices Real, falei. A resposta imediata, foi risível e aterrorizante. “Quê? No sé donde és!”.

Puta caralha, olhei pra Stefani e sem saber o que fazer, apenas falei: “pero, usted puede nos dejar na carrera 14”. Neste momento com a mão a cada milésimo de segundo na buzina, o motorista, saído de um filme latino dos anos 80, acenou com a cabeça. E logo seguiu o discurso: “é um lugar perigoso”. Neste momento, pensei: Ok, já era né, foda-se. No caminho os livros de Gabo iam tornando-se palpáveis. O realismo fantástico não é um gênero literário, é um país.

Com alguns gritos, milhares de buzinas, e sem nenhum ferido, chegamos ao hostel, que é do caralho. Puta massa e um atendimento sem igual. O bairro, Torices, não necessariamente perigoso, mas sim esquecido pelo poder público. Há muito lixo na rua, e pelo que percebe-se não há um sistema de coleta seletiva, além de, claro, jogar lixo em qualquer lugar ser um fator cultural, ao menos em Cartagena e Barranquilla.

img_4012Sedentos por um banho descobrimos que não há chuveiros em Cartagena, e sim um cano, ou bica, com água gelada, que à primeira vista te deixa meio tenso, mas em alguns segundos você agradece a Mamo (deus indígena colombiano) pela água fria, que engana o calor indescritível.

Banho tomado, toba cheiroso, chamamos um UBER, (ao ir pra Colômbia, ande só de UBER, melhor experiência) e fomos a la Ciudad Amurallada.

Que lugar do caralho, e fedido nos cantos, pois assim como jogar lixo na rua, rios, pátio de casa ou no mar parece cultural na região, urinar em público é normal. Somos abordados por um ambulante, risonho e cheio de simpatia, que ao descobrir que somos brasileiros, nos trata com mais gentileza ainda. Nos conta a história da cidade e nos guia pela muralha.

unnamedConta como os negros construíram toda a cidade, a muralha e foram massacrados e humilhados pelos espanhóis. Eles, assim como nós, nutrem uma mágoa dos seus colonizadores. Que claro, ao ter conhecimento da história, das “bruxas” e “bruxos” queimados no palácio da inquisição, a alguns passos dali, nada mais justo. Ao final da conversa, nos agradece pela atenção, não nos cobra pela história e o trabalho de guia, mas nos oferece o seu trabalho, um imã que lembra a cidade e sua origem negra.

Foram mais três dias na cidade, colhendo curiosidades e experiências ótimas. Incluindo a do motorista do UBER, José Maria, que ao descobrir que éramos brasileiros, sorri largamente e em português declara seu amor à língua portuguesa: “Eu adoro o Brasil, amo a língua de vocês”. Curiosos, o questionamos como aprendeu a falar português, ele nos conta que era marinheiro e durante muito tempo trabalhou em navios que atracavam em Santos, no Rio e também em São Francisco do Sul.

No último dia na cidade, acordamos cedo, e logo a notícia da queda do avião da Chape nos destroçou. Além do horror completo da tragédia, havia amigos no voo. Não sabíamos o que fazer, colegas entravam em contato para ver o que estava acontecendo e se podíamos ajudar de alguma forma, mas estávamos do outro lado do país e muito pouco poderia ser feito. Tentamos nos aliviar do choque e seguir viagem, agora com um gosto amargo. Chegamos à recepção do hostel, e já recebemos mensagens de carinho e força. Na conversa contamos que éramos do mesmo departamento (Estado) da delegação da Chape e havia amigos no voo, o carinho virou abraço e lágrimas. Eles encararam a tragédia como deles não só em Medellín, mas em toda a Colômbia.

Pegamos uma van (acredite em mim Simba, não pegue alguns ônibus na Colômbia) para Barranquilla, e no caminho as notícias continuavam piores e desencontradas. Na chegada à cidade, a Stefani estava produzindo um artigo para o Hora e falou com alguns passageiros e o motorista que havia nos transportado. A incredulidade e palavras de carinho vinham de todas as partes.

Que caralha é essa?

img_4025Barranquilla, além da Shakira, é uma cidade completamente caótica. As ruas são apinhadas de ambulantes, uma espécie de camelô a céu aberto, que fica entre a calçada e a rua. Ali é possível encontrar qualquer coisa, desde uma rodela de abacaxi até nacos de asteróide, que caíram no deserto há uma semana atrás. Em meio à miscelânea de pessoas, veículos, barracas, vozes, buzinas a gentileza colombiana sempre sobressai. Em nenhum lugar onde fomos, tirando a tia do aeroporto e a mina da Latam lá onde o Bogotá, houve má vontade. Todos faziam questão de parar, entender o que precisávamos e informar de maneira precisa. Com especial atenção para a polícia colombiana, exemplo de educação e boa vontade, alguns policiais brasileiros podiam fazer um curso lá.

Seguindo pelas ruas de Baranquilla, encontramos um antigo cinema, que ao contrário dos nossos que viram casa do Edir Macedo, tornou-se um restaurante e conserva em seu interior tudo, desde projetores a cartazes clássicos do cinema dos anos 70. O lugar além de ser uma espécie de museu tem um rango bom pra caralho e, pra variar, um ótimo atendimento.

Com o bucho cheio, seguimos a caminhada até o museu do Caribe. Na primeira sala, que é a última, há alguns livros, máquinas de escrever, uma máquina fotográfica e quando as luzes se apagam, borboletas amarelas surgem e por alguns instantes você está em Macondo e dentro de inúmeros outros trechos de livros de Gabriel Garcia Márquez. Caminhando e cantando e seguindo a canção, nos outros andares do museu há exposições sensacionais sobre a língua falada na região do Caribe, o povo, a música e a dança.

Voltando ao centro caótico, a coisa mais legal e louca da Colômbia é a Colômbia, descobrimos que entre as barracas de ambulantes e as lojas, no pequeno espaço que sobra para caminhar na calçada, há em alguns pontos contadores, sentados como se fossem engraxates, a postos com suas máquinas de escrever para atender a qualquer cidadão que necessite ali, de bate pronto, de uma declaração de imposto de renda ou algum outro documento oficial que necessite de um carimbo de um contador juramentado e de algumas tecladas rápidas na mais nova olivetti do mercado.

Na cidade além do caos que acaba sendo atraente, há também o La cueva, buteco onde o quarteto de Barranquilla, juntava-se após fechar o jornal para beber e tergiversar sobre política, jornalismo e literatura. Além dos quatro, mais tarde uniu-se a eles Gabo, o nobel de literatura, que sempre recebia elogios em seus textos e livros. “Tá uma bosta professor”.

El Libertador

img_4061De Barranquilla para Santa Marta, nossa próxima parada, àquela coisa da Colômbia: mar caribenho ao lado e muita música típica, pois a democracia nos transportes é: ouça o que o motorista quer. O que geralmente é bom, tirando uma viagem, que o motora estava descornado e ouvia uma espécie de Fábio Júnior colombiano.

Chegando em Santa Marta, uma nova realidade, o lixo e a sujeira característicos de algumas partes de Barranquilla e Cartagena não existia. Tudo muito limpo. Um calor de desmaiar o Batista e claro, buzinas. Buzinas, buzinas, buzinas. Na avenida principal a mesma realidade de Barranquilla; camelô a céu aberto, ambulantes, consumidores, lojas, carros, caminhões, ônibus, putas, michê, putos, porco, galinha, pendrive, cueca, velotrol, camisa do Barcelona, todos coexistindo pacificamente.

A cidade, não tão turística quanto Cartagena é muito mais legal. Nela há muita mais beleza e coisas para se fazer. Há na capital do departamento de Magdalena a Quinta de San Pedro Alejandrino, fazenda onde viveu e morreu Símon Bolívar. Do Hotel até o Museu/Santuário de animais fomos de Uber. Ricardo, o motorista, fez questão conversar muito, falar sobre a Colômbia e de como eles amam o Brasil, seu segundo time de futebol. Apenas não torce para a nossa seleção se o jogo for contra a Colômbia. Na chegada à quinta, ele agradece a conversa e lhe dou uma moeda de R$ 1, a única coisa que tínhamos do Brasil. Com os olhos úmidos, ele agradeceu o gesto e repetiu várias vezes: “voy a conservar”.

img_4048Na quinta, senti inveja dos colombianos, eles têm um herói verdadeiro, alguém que lutou pelo povo e libertou o país dos espanhóis. Nós, bom, temos uns zé ruelas. A fazenda, abriga a sede onde morreu Bolívar, móveis originais, uma área verde gigante que é um santuário de pássaros (até mesmo para o Chupa Huevos, o mais escandaloso de todos), iguanas, tartarugas e uma gata. Há também no local um espaço reservado à arte contemporânea Latino Americana.

De volta ao centro, fomos ao porto, ver o pôr do sol, e uma das cenas mais marcantes da viagem, e também uma materialização do livros de Gabo, fez-se ali. Um senhor, parou de frente para o sol e com toda sua fé, cantou para seu deus. A oração, uma mescla de espanhol com alguma língua indígena, creio, foi entoada três vezes, sempre com uma benção em direção ao sol ao final delas.

Após a linda cena, escolher um lugar pra rangar, sentamos num buteco na orla do porto. Na mesa ao lado, alguns gringos conversando, no que parecia ser alemão. Tomamos duas Club Colômbia – apenas bebam – e continuamos ali, até sermos abordados pelo gringo, um pouco feliz, é verdade. Do you speak english? A missão era explicar a eles quanto dava a conta em colombianos, convertidos para obamas. Em meio a uma confusão de línguas: português, inglês, francês, espanhol e ucraniano (os gringos eram ucranianos), nos entendemos. O gringo agradeceu e descobriu que éramos brasileiros. “Oh, brazilians”. A conversa já virou festa e futebol. Em resumo, o gringo é marinheiro, trabalha em um barco gigante pra caralho e é torcedor do Shakhtar Donetsk. Ser brasileiro é bom pra caralho.

img_4180No segundo dia em Santa Marta, conhecemos o centro histórico, vimos um protesto de professores pela melhoria na educação e um protesto por melhorias e inclusão de deficientes. Neste segundo protesto, que mais parecia um desfile típico, com muita música e dança, vimos mais uma vez como a Colômbia é linda. Crianças que estavam na praia corriam em direção à avenida para dançar.

Macondo

img_4217Saindo de Santa Marta fomos para a cidade onde nasceu Gabo, Aracataca. Se a Colômbia tem um ar anos 80, Aracataca é a Macondo de Cem anos de Solidão. O que deixa a cidade maravilhosa. O povo da cidade é lindo, traços, trejeitos, educação, gentileza. Não há como explicar o que acontece naquela cidade. Ela de fato é o que Gabriel escreve em seus livros. Não há como andar pelas suas ruas e não imaginar a companhia de ciganos de Melquiades trazendo as maravilhas do mundo para ali. As borboletas amarelas estão por toda parte, como se em cada esquina houvesse um Maurício Babilônia.

Aqui ocorreram as maiores demonstrações de carinho e gentileza que a Colômbia proporcionou. Todos na cidade nos receberam com sorrisos e um sincero: buendía ou apenas buenas. Além das várias manifestações de carinho e surpresa que os moradores expressavam ao saber que éramos de Bresil, a prova máxima, que temos muito a aprender com eles, aconteceu ao procurarmos um banco na cidade. Após sermos informados que havia apenas um banco na cidade, nos perdemos, porém o senhor que nos havia informado onde era, percebeu nosso erro, pegou sua moto foi até onde estávamos e voltou nos guiando até o banco. Sempre com um sorriso no rosto, apertou minha mão e quando quis dar dinheiro a ele, recusou.

Aracataca é na essência, o que Gabriel Garcia Marquez descreveu, uma cidade simples, com pessoas simples, mas felizes e verdadeiras. E como a frase de Gabo, estampada no mural na entrada da cidade, hoje me sinto latino americano de todos os países.

¡Gracias, Colombia!

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