Ínclitos

É preciso coragem para se comprometer, para dizer o que se vê e o que se sente, sem medos nem manuais. Só vale a pena ser jornalista se for – como cantou Torquato Neto – para "desafinar o coro dos contentes". Fernando Evangelista

Mi Colômbia

Aqui, onde o Bogotá

Mujeres si a la paz, violencias ni una mas. Assim fomos recebidos na Colômbia, tão próxima e tão distante do Brasil. Sobrevoando Bogotá, o comandante, com aquela voz de locutor de AM do interior, informa aos passageiros: “devido a um intenso temporal não é possível aterrissar”. O avião dá algumas voltas e segue ao aeroporto. Na imigração, confesso que estava com o cu na mão, não por ser a primeira viagem ao exterior, mas por ao embarcar, no Brasil, a guria da Latam ter feito maior terrorismo, pela minha identidade ser de quando tinha 12 anos e o único documento atualizado que possuia ser a CNH.

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Voltando a Guarulhos, ao despachar a bagagem, a atendente fez questão de frisar que a CNH não seria aceita como documento. “O senhor será deportado”. Caralha, que bosta, pensei. Mas foda-se. Ao menos vou dar um rolê de 4h. Todavia contra os prognósticos apocalípticos, chegando lá, onde o Bogotá, não houve problema algum. Foi um misto de cara crachá e os primeiros balbucios de um espanhol trôpego, ensaiado semanas antes no Duolingo.

Tudo lindo, entramos no país, ao menos no aeroporto. Aí veio a primeira e segunda impressão, que logo caíram por terra. Ao tentar recuperar a bagagem – que a mina, terrorista de Guarulhos, despachou direto à Cartagena, mas fez o favor de não avisar -, a atendente da Latam, que devia estar num mau dia – pensei que ia tomar uma bomba dela -, fez questão de ignorar o portunhol e apenas olhar com cara feia e falar algo sobre conexão. Graças a um tio que, vendo a cena, esclareceu tudo na maior boa vontade, seguimos ao saguão do aeroporto e como manda o figurino, reservar hotel, pra que? Porque né?

Parados, sem dar bandeira, é claro, SQN, na busca de um app que resolve-se a treta, cola uma tia e manda: “estão procurando hotel?”. Em meio a cabacice e a vontade de um banho, topamos a oferta da moça. “Tenho um hotel barato, $120 mil, fica a 15 minutos daqui.

Beleza, é nóix tia. Vamos lá.

Após algumas voltas no aeroporto, com ela liquefazendo seus contatos no whatsapp, embarcamos em um carro, com um motorista muito simpático, que nos recebe muito bem e começa a falar sobre a Colômbia e perguntar sobre o Brasil. Rodamos algumas quadras, com a cidade alagada, pelo pé d’água que havia caído, chegamos a um hotel. Bizarro. Certamente foi cenário para Narcos. Uma tia, cabreira, abre um vão na porta e fala com o motorista. A única coisa que entendemos é: “não tem quarto”. Num misto de agradecimento e incredulidade voltamos ao carro.

O motorista meio sem saber o que fazer, questiona a tia do aeroporto. Neste entretempo, decidimos ir ao centro de Bogotá. Avisamos o motorista. Ele se apavora. Tenta nos dissuadir. Comenta que a cidade é perigosa àquela hora. Mas após alguns minutos de conversa, atende nosso pedido. Ainda assim, com ressalvas e recomendações de cuidado.

No caminho, a generosidade do povo colombiano, hoje conhecida no mundo todo, nos foi apresentada. O motora, que não lembro o nome, nos deu uma aula sobre a cidade, história da Colômbia e mostrou todos os pontos turísticos no caminho, parando em frente a eles e relatando uma breve história do que fora ali e como o jogo político e a guerra com as Farc e com Pablo Escobar atuaram e atuam sobre a cidade. Dando ênfase, com profundo orgulho, ao museu Simón Bolívar. “Acá se puede mirar el museo de nuestro libertador”.

Mais algumas voltas e uma gentileza sem tamanho, fomos deixados na Plaza Bolívar, onde se concentra o maior número de pombos por metro quadrado da América Latina, durante o dia, e à noite policiais. Na fachada de um dos prédios do complexo do governo uma faixa gigante expunha a frase que abre este texto. Como não havia muito para ver, pelo horário, seguimos a esmo em direção a avenida mais movimentada da capital. No caminho, vimos uma treta feia, mas feia, MMA Colômbia, entre duas mulheres, com direito à platéia, contradizendo a faixa da praça Bolívar.

Meio perdidos, sentamos em uma sanduicheria, comemos um rolê, bom pra caralho, e fomos informados pelo proprietário que havia um hotel, ali, a três passos e pelos mesmos $120 mil, que a tia miguelona queria nos empurrar em uma espelunca. O jogo estava virando, puta hotel, com um puta café da manhã, com direito a suco de Lulo, não sei o que é, não degustei-o.

A Muralha

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Em direção a Cartagena. Chegamos ao aeroporto e, como todo bom pato, caímos mais uma vez no conto do turista tanso. 130 colombianos gritando táxi, táxi, táxi …. abrindo as portas e praticamente jogando turistas para dentro do veículos. Lá fomos nós. Já saindo do aeroporto o motorista pergunta: “donde vamos?”, Casa Torices Real, falei. A resposta imediata, foi risível e aterrorizante. “Quê? No sé donde és!”.

Puta caralha, olhei pra Stefani e sem saber o que fazer, apenas falei: “pero, usted puede nos dejar na carrera 14”. Neste momento com a mão a cada milésimo de segundo na buzina, o motorista, saído de um filme latino dos anos 80, acenou com a cabeça. E logo seguiu o discurso: “é um lugar perigoso”. Neste momento, pensei: Ok, já era né, foda-se. No caminho os livros de Gabo iam tornando-se palpáveis. O realismo fantástico não é um gênero literário, é um país.

Com alguns gritos, milhares de buzinas, e sem nenhum ferido, chegamos ao hostel, que é do caralho. Puta massa e um atendimento sem igual. O bairro, Torices, não necessariamente perigoso, mas sim esquecido pelo poder público. Há muito lixo na rua, e pelo que percebe-se não há um sistema de coleta seletiva, além de, claro, jogar lixo em qualquer lugar ser um fator cultural, ao menos em Cartagena e Barranquilla.

img_4012Sedentos por um banho descobrimos que não há chuveiros em Cartagena, e sim um cano, ou bica, com água gelada, que à primeira vista te deixa meio tenso, mas em alguns segundos você agradece a Mamo (deus indígena colombiano) pela água fria, que engana o calor indescritível.

Banho tomado, toba cheiroso, chamamos um UBER, (ao ir pra Colômbia, ande só de UBER, melhor experiência) e fomos a la Ciudad Amurallada.

Que lugar do caralho, e fedido nos cantos, pois assim como jogar lixo na rua, rios, pátio de casa ou no mar parece cultural na região, urinar em público é normal. Somos abordados por um ambulante, risonho e cheio de simpatia, que ao descobrir que somos brasileiros, nos trata com mais gentileza ainda. Nos conta a história da cidade e nos guia pela muralha.

unnamedConta como os negros construíram toda a cidade, a muralha e foram massacrados e humilhados pelos espanhóis. Eles, assim como nós, nutrem uma mágoa dos seus colonizadores. Que claro, ao ter conhecimento da história, das “bruxas” e “bruxos” queimados no palácio da inquisição, a alguns passos dali, nada mais justo. Ao final da conversa, nos agradece pela atenção, não nos cobra pela história e o trabalho de guia, mas nos oferece o seu trabalho, um imã que lembra a cidade e sua origem negra.

Foram mais três dias na cidade, colhendo curiosidades e experiências ótimas. Incluindo a do motorista do UBER, José Maria, que ao descobrir que éramos brasileiros, sorri largamente e em português declara seu amor à língua portuguesa: “Eu adoro o Brasil, amo a língua de vocês”. Curiosos, o questionamos como aprendeu a falar português, ele nos conta que era marinheiro e durante muito tempo trabalhou em navios que atracavam em Santos, no Rio e também em São Francisco do Sul.

No último dia na cidade, acordamos cedo, e logo a notícia da queda do avião da Chape nos destroçou. Além do horror completo da tragédia, havia amigos no voo. Não sabíamos o que fazer, colegas entravam em contato para ver o que estava acontecendo e se podíamos ajudar de alguma forma, mas estávamos do outro lado do país e muito pouco poderia ser feito. Tentamos nos aliviar do choque e seguir viagem, agora com um gosto amargo. Chegamos à recepção do hostel, e já recebemos mensagens de carinho e força. Na conversa contamos que éramos do mesmo departamento (Estado) da delegação da Chape e havia amigos no voo, o carinho virou abraço e lágrimas. Eles encararam a tragédia como deles não só em Medellín, mas em toda a Colômbia.

Pegamos uma van (acredite em mim Simba, não pegue alguns ônibus na Colômbia) para Barranquilla, e no caminho as notícias continuavam piores e desencontradas. Na chegada à cidade, a Stefani estava produzindo um artigo para o Hora e falou com alguns passageiros e o motorista que havia nos transportado. A incredulidade e palavras de carinho vinham de todas as partes.

Que caralha é essa?

img_4025Barranquilla, além da Shakira, é uma cidade completamente caótica. As ruas são apinhadas de ambulantes, uma espécie de camelô a céu aberto, que fica entre a calçada e a rua. Ali é possível encontrar qualquer coisa, desde uma rodela de abacaxi até nacos de asteróide, que caíram no deserto há uma semana atrás. Em meio à miscelânea de pessoas, veículos, barracas, vozes, buzinas a gentileza colombiana sempre sobressai. Em nenhum lugar onde fomos, tirando a tia do aeroporto e a mina da Latam lá onde o Bogotá, houve má vontade. Todos faziam questão de parar, entender o que precisávamos e informar de maneira precisa. Com especial atenção para a polícia colombiana, exemplo de educação e boa vontade, alguns policiais brasileiros podiam fazer um curso lá.

Seguindo pelas ruas de Baranquilla, encontramos um antigo cinema, que ao contrário dos nossos que viram casa do Edir Macedo, tornou-se um restaurante e conserva em seu interior tudo, desde projetores a cartazes clássicos do cinema dos anos 70. O lugar além de ser uma espécie de museu tem um rango bom pra caralho e, pra variar, um ótimo atendimento.

Com o bucho cheio, seguimos a caminhada até o museu do Caribe. Na primeira sala, que é a última, há alguns livros, máquinas de escrever, uma máquina fotográfica e quando as luzes se apagam, borboletas amarelas surgem e por alguns instantes você está em Macondo e dentro de inúmeros outros trechos de livros de Gabriel Garcia Márquez. Caminhando e cantando e seguindo a canção, nos outros andares do museu há exposições sensacionais sobre a língua falada na região do Caribe, o povo, a música e a dança.

Voltando ao centro caótico, a coisa mais legal e louca da Colômbia é a Colômbia, descobrimos que entre as barracas de ambulantes e as lojas, no pequeno espaço que sobra para caminhar na calçada, há em alguns pontos contadores, sentados como se fossem engraxates, a postos com suas máquinas de escrever para atender a qualquer cidadão que necessite ali, de bate pronto, de uma declaração de imposto de renda ou algum outro documento oficial que necessite de um carimbo de um contador juramentado e de algumas tecladas rápidas na mais nova olivetti do mercado.

Na cidade além do caos que acaba sendo atraente, há também o La cueva, buteco onde o quarteto de Barranquilla, juntava-se após fechar o jornal para beber e tergiversar sobre política, jornalismo e literatura. Além dos quatro, mais tarde uniu-se a eles Gabo, o nobel de literatura, que sempre recebia elogios em seus textos e livros. “Tá uma bosta professor”.

El Libertador

img_4061De Barranquilla para Santa Marta, nossa próxima parada, àquela coisa da Colômbia: mar caribenho ao lado e muita música típica, pois a democracia nos transportes é: ouça o que o motorista quer. O que geralmente é bom, tirando uma viagem, que o motora estava descornado e ouvia uma espécie de Fábio Júnior colombiano.

Chegando em Santa Marta, uma nova realidade, o lixo e a sujeira característicos de algumas partes de Barranquilla e Cartagena não existia. Tudo muito limpo. Um calor de desmaiar o Batista e claro, buzinas. Buzinas, buzinas, buzinas. Na avenida principal a mesma realidade de Barranquilla; camelô a céu aberto, ambulantes, consumidores, lojas, carros, caminhões, ônibus, putas, michê, putos, porco, galinha, pendrive, cueca, velotrol, camisa do Barcelona, todos coexistindo pacificamente.

A cidade, não tão turística quanto Cartagena é muito mais legal. Nela há muita mais beleza e coisas para se fazer. Há na capital do departamento de Magdalena a Quinta de San Pedro Alejandrino, fazenda onde viveu e morreu Símon Bolívar. Do Hotel até o Museu/Santuário de animais fomos de Uber. Ricardo, o motorista, fez questão conversar muito, falar sobre a Colômbia e de como eles amam o Brasil, seu segundo time de futebol. Apenas não torce para a nossa seleção se o jogo for contra a Colômbia. Na chegada à quinta, ele agradece a conversa e lhe dou uma moeda de R$ 1, a única coisa que tínhamos do Brasil. Com os olhos úmidos, ele agradeceu o gesto e repetiu várias vezes: “voy a conservar”.

img_4048Na quinta, senti inveja dos colombianos, eles têm um herói verdadeiro, alguém que lutou pelo povo e libertou o país dos espanhóis. Nós, bom, temos uns zé ruelas. A fazenda, abriga a sede onde morreu Bolívar, móveis originais, uma área verde gigante que é um santuário de pássaros (até mesmo para o Chupa Huevos, o mais escandaloso de todos), iguanas, tartarugas e uma gata. Há também no local um espaço reservado à arte contemporânea Latino Americana.

De volta ao centro, fomos ao porto, ver o pôr do sol, e uma das cenas mais marcantes da viagem, e também uma materialização do livros de Gabo, fez-se ali. Um senhor, parou de frente para o sol e com toda sua fé, cantou para seu deus. A oração, uma mescla de espanhol com alguma língua indígena, creio, foi entoada três vezes, sempre com uma benção em direção ao sol ao final delas.

Após a linda cena, escolher um lugar pra rangar, sentamos num buteco na orla do porto. Na mesa ao lado, alguns gringos conversando, no que parecia ser alemão. Tomamos duas Club Colômbia – apenas bebam – e continuamos ali, até sermos abordados pelo gringo, um pouco feliz, é verdade. Do you speak english? A missão era explicar a eles quanto dava a conta em colombianos, convertidos para obamas. Em meio a uma confusão de línguas: português, inglês, francês, espanhol e ucraniano (os gringos eram ucranianos), nos entendemos. O gringo agradeceu e descobriu que éramos brasileiros. “Oh, brazilians”. A conversa já virou festa e futebol. Em resumo, o gringo é marinheiro, trabalha em um barco gigante pra caralho e é torcedor do Shakhtar Donetsk. Ser brasileiro é bom pra caralho.

img_4180No segundo dia em Santa Marta, conhecemos o centro histórico, vimos um protesto de professores pela melhoria na educação e um protesto por melhorias e inclusão de deficientes. Neste segundo protesto, que mais parecia um desfile típico, com muita música e dança, vimos mais uma vez como a Colômbia é linda. Crianças que estavam na praia corriam em direção à avenida para dançar.

Macondo

img_4217Saindo de Santa Marta fomos para a cidade onde nasceu Gabo, Aracataca. Se a Colômbia tem um ar anos 80, Aracataca é a Macondo de Cem anos de Solidão. O que deixa a cidade maravilhosa. O povo da cidade é lindo, traços, trejeitos, educação, gentileza. Não há como explicar o que acontece naquela cidade. Ela de fato é o que Gabriel escreve em seus livros. Não há como andar pelas suas ruas e não imaginar a companhia de ciganos de Melquiades trazendo as maravilhas do mundo para ali. As borboletas amarelas estão por toda parte, como se em cada esquina houvesse um Maurício Babilônia.

Aqui ocorreram as maiores demonstrações de carinho e gentileza que a Colômbia proporcionou. Todos na cidade nos receberam com sorrisos e um sincero: buendía ou apenas buenas. Além das várias manifestações de carinho e surpresa que os moradores expressavam ao saber que éramos de Bresil, a prova máxima, que temos muito a aprender com eles, aconteceu ao procurarmos um banco na cidade. Após sermos informados que havia apenas um banco na cidade, nos perdemos, porém o senhor que nos havia informado onde era, percebeu nosso erro, pegou sua moto foi até onde estávamos e voltou nos guiando até o banco. Sempre com um sorriso no rosto, apertou minha mão e quando quis dar dinheiro a ele, recusou.

Aracataca é na essência, o que Gabriel Garcia Marquez descreveu, uma cidade simples, com pessoas simples, mas felizes e verdadeiras. E como a frase de Gabo, estampada no mural na entrada da cidade, hoje me sinto latino americano de todos os países.

¡Gracias, Colombia!

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Galeano (1940 – 2015)

Para quem usou palavras para imortalizar filosofias. Para quem nunca morrerá, pois os grandes ficam na memória, nas conversas e na tinta do papel, como ele mesmo antecipou. Para quem desnudou conscientemente uma América Latina refém. Para quem foi um apaixonado, pelo mundo, pela vida, pelo direito de ser quem você quiser, pela liberdade. Para quem obteve na ficção e no jornalismo formas distintas de prosperidade. Para quem foi Galeano.

O mundo fica silencioso, nesta segunda.

Palavras de um jovem terceirizado e freelancer

por Thomas Manhell

Ao começar o seu primeiro dia de trabalho, algumas promessas são jogadas na mesa, após a apresentação, é claro. Você não tem um chefe, mas um colega; irá trabalhar seis horas por dia; trabalhará produzindo textos e estipulará um horário padrão. Algumas manhãs depois, a primeira surpresa: você acorda 6h da manhã, pois alguém gostaria de saber algo relativo a sua produção. Seu celular foi repassado, pois você “coordena” aquela parte e passará a responder por ela. Você não ganha por isso, mas é assim que as coisas serão a partir de agora. Como um novo empreendedor sempre diz: “as pessoas têm que se doar a mais no mercado competitivo de hoje, não existe mais desvio de função”. Você precisa trabalhar mais para provar seu valor, mas não existe prova de valor no mercado competitivo. Nunca provará o bastante.

O projeto de lei que tramita no Congresso Nacional para ser aprovado, o 4.330, de autoria do deputado Sandro Mabel (PMDB), permitirá que esse tipo de ação em desfavor do trabalhador seja efetivada, legalizada e usada em prol do empresariado. Trabalhe mais, ganhe menos. Um slogan que poderia ser visto na década de 30, antes da CLT de Vargas, quando muitos acordos eram feitos com os patrões e quem se prostituísse por migalhas ficaria com o emprego. As chamadas “atividades-fins e atividades-meio” parecem palavrões, mas não são. São bem diferentes. Hoje, com o limite de lei, as empresas que oferecem serviços de terceirização designam seus funcionários para prestar os cargos de zelador, recepcionista, segurança, servente, jardineiro, manobrista e, ao que sou encarregado desde 2010, digitador. Eles chamam de serviços especializados.

Quando entrei em 2010, numa assessoria de imprensa de uma instituição pública, apenas um funcionário público era deslocado para o setor. O órgão utilizava o serviço de estágio de jornalismo, outra discussão, além do terceirizado, que era contratado para “digitar”. Mas a prática, claro, é outra. Você é contratado como assessor de imprensa, para fazer serviço de jornalista, sem seu piso salarial, e é isso que esperam de você. Ou você está na rua. Sem estabilidade. As condições não parecem atraentes, mas, dentro de uma perspectiva juvenil e a qual parece satisfazer em partes o que você ama (escrever), você se submete.  E, óbvio, alguns contratados farão um grande trabalho e não custarão quase nada para a empresa.

Um exemplo: quando a única funcionária pública da instituição tirou férias, eu fiquei coordenando o setor (um terceirizado responsável por uma assessoria estadual) e o trabalho foi apreciado pelos chefes imediatos. O que poderia parecer um indicativo de valorização, em primeira mão, mostrou-se uma desculpa para não colocar outra funcionária pública no setor, pois eu dava conta. E não custo nada ao Estado. Custo à minha empresa terceirizada, que ganha o dobro em cima de mim. Porém, continuo fazendo o serviço, pois é o que amo: escrever, assessorar, exercer minha profissão, ainda que por adjacências.

O Estado não é exceção. A cada dia, as redações jornalísticas do país reaproveitam essa mão de obra mais barata. Algo que começou com os assistentes de redação – que eram desculpas para “legalizar” a contratação ilegal de estagiários e ganhavam o salário de acordo com isso -, agora está recebendo outros nomes. As empresas estão cada dia mais agindo de acordo com lucro e só lucro. Sem ônus. Sem direitos trabalhistas. Empresas de comunicação, por exemplo, trazem os jovens no mercado para escrever de graça para eles, em comum acordo, prometendo um nome e referência futura; todavia, isso não paga as contas. E essas empresas sabem disso. Os jornais, hoje, pouco mandam seus funcionários às ruas. Esperam que as ruas cheguem até eles. Essa é a linguagem imperativa e que transformou os analistas em filósofos fatalistas, que gritam o fim do jornalismo há anos. É uma realidade contornável, mas que fica muito mais difícil com a libertinagem da terceirização do país.

Comecei a escrever para um desses grandes monopólios da comunicação como um colaborador habitual, mas sem ganhar um tostão por isso. Artigos de primeira página. De graça. Após dois anos usufruindo dessas colaborações, comigo crescendo e adquirindo noção de que meus textos valiam algo e que ninguém precisa se vender de graça, eles ofereceram uma coluna. Paga. Mas nos termos deles. Agora, a empresa podia me pagar por coluna, como freela, desde que escrevesse ao site também. Dois serviços pelo preço de um. Com cobrança semanal por resultado. Dinheiro mensal, por coluna. Esse é o preço da terceirização travestida de freela. Contratar por menos e faturar por mais. Se aprovada no Senado, o que não parece impossível, eu julgo que praticamente todas as empresas de comunicação do país usarão esse tipo de artifício para não pagar mais pisos salariais para jornalistas e aproveitar jovens no mercado com falsas promessas, pessoas que queiram seus nomes em destaque e que lucram para uma empresa que não lhes dá nada em troca. Você não ganha férias, adicional, hora extra por escrever de madrugada, você apenas trabalha. O contrato é redigido como se você não fosse um indivíduo: ele estabelece que você é exclusivo, mas sem especificar o tipo de trabalho e o quanto você ganhará com ele.

A criação de milhares de “empregos”, é a promessa que alguns analistas fazem. Eu também criaria dezenas de oportunidades de trabalho, caso fosse empresário e estivesse a ponto de visualizar esse futuro do livre-comércio sem nenhum limite. Você demite todos os empregados de sua empresa, contrata o dobro de terceirizados pelo mesmo preço. Ou menos. Jornalistas se tornarão independentes. Faculdades de administração não valerão nada. Educação física, Antropologia, Psicologia, Pedagogia, Turismo e Hotelaria. Contarão com a boa vontade de patrões em ter o melhor currículo, não o mais barato. Quando contamos com a boa vontade do empresariado, algo está errado. Nada que provenha de uma promessa neoliberalista, o pobre em detrimento do rico, soa boa coisa. E o PL 4.330 chega para assombrar ainda mais essa instabilidade que flerta com a economia do país. Não permitam que o Brasil acorde amanhã nas mãos de empresas que falam em “competitividade de mercado”, quando deveriam estar falando em condições de trabalho.

Batman: além do herói

por França Ivanir

Joker
“Por que um morcego?

Porque eu temo morcegos, e eu transformarei o meu medo, no medo deles!”
(Batman Begins, 2005).

 Em 2005, sob a direção de Christopher Nolan, renasce nos cinemas um dos mais cultuados heróis da cultura pop. Batman Begins (2005) traz de volta ao imaginário coletivo a figura obscura e mesquinha do personagem das Histórias em Quadrinhos (HQs); contudo, além do renascimento do herói nos moldes clássicos de HQs consagradas, Batman é apresentado ao público de uma maneira realista e totalmente crível. Na trilogia de Nolan, Batman é humano, ao contrário dos personagens fantasiosos retratados nos filmes anteriores e mesmo em algumas HQs. Bruce Wayne, ao assumir a figura de Batman, “luta contra a maioria das coisas que lutamos todos os dias.” (BATMAN UNMASKED, 2008). Para Freud (1915), essa condição narrativa ficcional leva-nos a encontrarmos a pluralidade de vidas de que necessitamos. “Morremos com o herói com o qual nos identificamos; contudo, sobrevivemos a ele e estamos prontos a morrer novamente, desde que com a mesma segurança, com outro herói”. (Freud, 1915. p. 301 apud SARMENTO; COPPUS 2012).

Batman deixa, então, as telas de cinema e as páginas das HQs para torna-se um signo. Recorremos à teoria semiótica para tentar entender os eventos que levaram o jovem bilionário Bruce Wayne a criar seu alter ego: Batman. Na história original criada por Bob Kane em 1939, o garoto Wayne, com cerca de 9 anos, vê um ladrão assassinar seus pais – Thomas e Martha Wayne – na saída de um teatro, em um beco escuro. Há então o estopim, psicológico, motivador que leva Bruce Wayne, herdeiro de um conglomerado de indústrias, a tornar-se anos mais tarde o cruzador noturno de Gothan City. Na mente de Wayne, a concepção do vigilante não está na vingança “pura”, mas sim em infringir o mesmo medo sentido por ele, ao ver-se sozinho no mundo, a todos os criminosos que tornaram Gothan perigosa e corrupta. Ao tornar-se Batman, Wayne transmuta-se em um símbolo de justiça, ou seja, há a construção do signo: Batman.

Segundo SANTAELLA, (2000), há uma ligação inseparável entre a cultura e comunicação. E o espectador, por sua vez, age como conector dessa rede, permitindo o processo de transmissão de mensagens. Essa “permissão” gera “[…] códigos específicos e signos de estatutos semióticos peculiares, além de produzirem efeitos de percepção, processos de recepção e comportamentos sociais que também lhes são próprios.” (SANTAELLA, 2000. P.29).

Não resta dúvida que muitas teorias da cultura […] apresentam características nitidamente semióticas, principalmente quando explicam a dimensão cultural através de sistemas simbólicos de uma dada formação social. No entanto, enquanto nas conhecidas ciências humanas os estudos da cultura são utilizados para compreender os agentes dos processos culturais, homem, a semiótica, por seu lado, coloca ênfase nos modos como esses sistemas são processados para produzirem sentidos e serem comunicados. (SANTAELLA, 1996, p. 30).

Dentro desse contexto encontramos conexões que fazem Batman tão complexo quanto contraditório. E “explorá-lo pode ser um teste revelador para o espectador. Porque encontramos nele: o heroísmo, o medo e a escuridão de dentro da alma”. (BATMAN UNMASKED, 2008). Em Batman Begins (2005), Bruce Wayne cai em um poço, desativado, na mansão Wayne e é “atacado” por morcegos. A cena apresentada no início do filme o humaniza. E, ao contrário do que ocorre nas HQs, Bruce Wayne, criança, é coagido por uma emoção universal: o medo.

Segundo Robin S. Rosenberg, editora da The Psychology of Superheroes, Batman Begins (2005) nos dá um melhor olhar sobre o garoto, Bruce Wayne. Ela destaca que ele tende a ser uma criança medrosa e ansiosa. O garoto Wayne tem tanto medo quanto qualquer espectador que está frente ao ecrã. Sentimento que causa a ele o maior trauma de sua vida. A morte de seus pais.

Um homem com bilhões de dólares no banco, um carro blindado e uma a armadura preta com capa, que salta entre prédios para punir bandidos, sabemos que é algo fantasioso; mas um sujeito que perdera os pais quando criança, assassinados na sua frente […] se culpa pelo fato e desenvolve decorrentes neuroses deste trauma é a mais pura realidade. (SARMENTO, 2012, p. 187).

Batman, de Nolan, torna-se então um espelho social, ao contrário do personagem frio da HQ, que adotou o morcego como símbolo quando um animal invadiu a mansão – enquanto divagava sobre a morte dos pais. E o leitor fica sabendo de seu medo apenas pela fala do personagem. “[…] Já vi essa criatura antes… em algum lugar. Ela me aterrorizou quando criança […]”. (MILLER, 2011. p. 32). No filme, Wayne sofre uma queda, não somente física, mas emocional. O medo de Bruce é muito bem trabalhado no roteiro do filme. Ao ser resgatado do poço, a cena seguinte mostra um garoto indefeso no colo do pai, recebendo um conselho. A cena o torna não somente “humano”, mas frágil. Essa humanização/fragilização provoca um fascínio midiático sob o signo Batman e o identifica com todos os espectadores por meio de ilusões aceitáveis, alinhadas com a certeza de que no fim o bem vencerá o mal. Ou seja, “acolhemos as ilusões, porque elas nos poupam sentimentos desagradáveis, permitindo-nos em troca gozar de satisfação”. (FREUD, 1915, p 290 apud SARMENTO; COPPUS, 2012). Na cena também é possível encontrar na fala de Thomas Wayne os primeiros fatos motivadores que podem “explicar” a concepção de Batman, na mente de Bruce.

Thomas Wayne
Porque caímos, Bruce? Para que aprendamos a nos levantar!
Sabe por que eles o atacaram, não sabe? Estavam com medo de você.

Bruce Wayne
Medo de mim?

Thomas Wayne
Todas as criaturas têm medo.

Bruce Wayne
Até mesmo as assustadoras?

Thomas Wayne
Especialmente elas. (Batman Begins, 2005)

Esse diálogo simples, e frugal em alguns aspectos, é primordial para a criação do caráter de Bruce e principalmente à concepção do seu senso de justiça. Em um dos conselhos, seu pai explica que o medo é a chave para entender a todos, principalmente as criaturas assustadoras. É a partir de seu próprio medo que Bruce aprende a dominá-lo. Na cena em que Bruce adulto volta à caverna e expõem-se propositalmente aos morcegos. Ele convive com seu medo até acalmar-se. E perceber que tudo está bem, ou seja, o signo Batman é “o simbolismo de usar um morcego para conquistar seu maior medo”. (BATMAN UNMASKED, 2008).

Segundo explica Benjamin R Karney, Professor da Association Of Social Psychology, UCLA – no documentário Batman Unmasked (2008) – Bruce Wayne é uma pessoa que sempre se perguntará se estará seguro novamente. E para ele a resposta mais óbvia é fazê-la com as próprias mãos. Robin S. Rosenberg, editora da – The Psychology of Superheroes – destaca que ao passar por eventos traumáticos é normal haver questionamentos sobre crenças fundamentais. “É assim que o trauma pode ser uma força poderosa e positiva que induz ao amadurecimento. Com Bruce Wayne, ele se dedicou a fazer justiça, não se vingar […] e proteger pessoas inocentes de atos criminosos”. (BATMAN UNMASKED, 2008).

No longa, após o fatídico episódio, Bruce “foge” de Gotham e envolve-se com o submundo do crime. O filme continua contextualizando fatos motivadores, críveis, que levam Wayne a tornar-se Batman. Há cenas que mostram o bilionário Wayne mendigando ou roubando para não passar fome, em terras estrangeiras. Essas imagens dão ao espectador a dimensão de seu sacrifício e de sua transformação moral. Para Christopher Nolan, diretor da Trilogia Batman, “[…] essa força surge dessa extraordinária motivação que foi a morte de seus pais e da sua superação. Então você tem esse personagem que está envolvido nessa cruzada para combater o crime”. (BATMAN UNMASKED, 2008).

Preso por crimes comuns, na China, Bruce é “encontrado” pelo líder da Liga das Sombras[1], Ra’s al Ghul, que irá torna-se seu mentor e posteriormente inimigo. Wayne é treinado, física e mentalmente, para ser um integrante da Liga. Contudo, para ser aceito como membro Bruce precisa julgar e matar um criminoso. É nesse momento que ele desenvolve em seu superego a “máxima” de Batman ou o seu próprio conceito de justiça. Ele nunca mata. A única regra do Homem Morcego é a morte. Ele a considera a linha que o separa dos criminosos e malfeitores que persegue.

Porém, esse “código de ética” gera a Bruce mais culpa toda vez que confronta um vilão causador de inúmeras mortes. E no caso específico do segundo longa ­– Batman The Dark Knight (TDK) – seu maior inimigo Joker (Coringa), conhecido principalmente pela violência e por suas ações imprevisíveis.

O vilão culpa Batman por todas as mortes que ele causa. Na lógica do Coringa, o morcego trouxe a loucura a Gotham, e ele é um produto criado a partir dela. Joker é a personificação da violência social. Ele não possui regras ou escrúpulo algum, todos os outros vilões de Batman possuem traços psicológicos característicos que corroboram com suas ações criminosas. Encontramos o narcisismo (Charada), sadismo (Espantalho), dupla personalidade (Duas Caras), entre outros. Todavia, Joker tem como único objetivo causar o caos pelo caos. “Alguns homens só querem ver o mundo pegar fogo” (THE DARK KNIGHT, 2008). Dentro desse contexto encontramos comparações com a violência social real, que sempre foi alvo de peças alegóricas cinematográficas, porém o surpreendente é vê-la formatada para a realidade do universo dos super-heróis. “São ecos da sociedade do espetáculo, demandando cada vez mais reflexos como autoamputações nos processos midiáticos através do consumo”. (SARMENTO; COPPUS, 2012, p. 187).

The Dark Knight é considerado pela crítica a obra prima de Nolan. O longa vai além de todas os preceitos básicos para formatar um grande filme. TDK possui algo maior. Seu subtexto baseado em elementos importantes da premiada HQ – A Piada Mortal – de Alan Moore.

[…] o roteiro dos irmãos Nolan faz muito sentido, tem viradas estratégicas e é praticamente impecável. Se em “Begins” a história se tratava da origem do personagem, e tinha uma Gotham corrupta como pano de fundo, a lógica agora inverteu-se, a origem do personagem vira o “pano de fundo”, para mostrar as consequências da chegada do justiceiro mascarado. Antes Gotham tinha na máfia seus maiores vilões e malfeitores, com a chegada do “cruzado encapuzado” viria uma “nova geração” de antagonista e obviamente, o que a cidade sofreria com isso. (BATOVERDOSE, 2012).

No filme, assim como na HQ, Joker quer provar a todos, principalmente para Batman, que até a pessoa mais equilibrada mentalmente pode enlouquecer. Na HQ, a vítima é o comissário Gordon, e, no filme, o promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart) – o cavaleiro Branco de Gothan, tido por Bruce Wayne como sua chance de abandonar a máscara e viver uma vida normal.

Na mente do Coringa para perder a sanidade há um elemento primordial – uma grande tragédia pessoal. Na construção narrativa do palhaço, esta perda pessoal é a linha que separa o vilão de uma pessoa comum. E, ao contrário do que ocorre na HQ, onde Gordon mantém a sanidade – mesmo sendo torturado psicologicamente – no longa a grande tragédia da vida de Dent o enlouquece. Transmutando o Cavaleiro Branco de Gothan no lunático, portador da desordem dissociativa, Two-faces.

Os traços psicológicos apresentados em TDK podem ser exemplificados pela teoria de Freud (1925 apud SARMENTO; COPPUS, 2012), pois Batman apresenta os sintomas do neurótico obsessivo. Ele infla seu amor próprio. O que lhe confere o sentimento de superioridade ante outras pessoas, pois ele considerara-se especialmente limpo e consciente de suas escolhas.

Gothan tem um sujeito que carrega uma eterna culpa e uma sensação de onipotência a cada empreitada, como os neuróticos carregam a psicanálise. “No fundo ninguém crê em sua própria morte, […] no inconsciente cada uma de nós está convencido de sua imortalidade” (FREUD, 1915, p 209) Mas este sujeito ambivalente age acima do poder legislativo e, de acordo com as tendências narcisistas, sente-se mais ‘limpo’ e especialmente mais correto que outras pessoas. Não há erro de julgamento […]. (SARMENTO; COPPUS, 2012, p. 185).

Batman é então a personificação do que ele combate. Ele é o lado sombrio de Bruce, e tenta integrar esse conflito constante entre a pessoa que ele é e a pessoa que ele quer ser. Esse conflito interno torna-se mais um fator motivador crível para o homem morcego. Batman é a perfeita simulação da união dos dois lados que todos temos, e esse simulacro visto no ecrã acaba quebrando a “quarta parede” e coloca Batman dentro do contexto social da sociedade do espetáculo imagético. Pois não sabemos quem é a verdadeira identidade: Batman ou Bruce Wayne. Essa dualidade é comparável a nossa realidade social, pois representamos vários papéis diariamente e não nos damos conta. Construímos durante a vida várias identidades “[…] com nossas esposas, com colegas de trabalho abaixo de nós e com os colegas acima de nós”. (BATMAN UNMASKED, 2008).

“[…] a demanda pelo muito é sempre insuficiente, coube ao sujeito mergulhar em um mar de fantasias e alucinações para escapar de sua angustia. As duas dimensões da tela de cinema se mostraram um perfeito aglomerado estético para essa alienação. Talvez alienação não seja a palavra correta para a situação, pois o sujeito se distancia somente do ponto de experimentar uma realidade altera, mas, para continuar a extrair sua substância humana […]” (SARMENTO; COPPUS, 2012, p. 186).

O signo Batman pode ser entendido por meio de escolhas, pois ele nos oferece uma visão de nossos próprios medos. E principalmente as maneiras como um ser humano comum pode se tornar um herói. “Ele é humano. É um dos poucos super-heróis que é só um cara normal que se dedica a combater o crime. […] Batman é totalmente plausível” (BATMAN UNMASKED, 2008). Ou seja, Batman reflete a ansiedade emocional, alegria e tristeza que experimentamos a vida toda. E acima de tudo ele representa a superação humana sobre uma tragédia. “A melhor coisa sobre Batman é que ele não é um super-herói. Ele é humano […] ele é o personagem que nos dá a esperança que todos precisamos” (BATMAN UNMASKED, 2008).

[1] Organização criminosa mundial cujo objetivo é o equilíbrio ambiental perfeito, o que significa exterminar boa parte da humanidade, uma praga para o planeta na visão de Ra’s Al Ghul. (QUADRINHOS NO CINEMA, 2012, p. 133).

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Cotidiano

Por França Ivanir

Seta, não é cu!

Sim! Seta não é cu. Outrora, os pudores despudorados não nos deixariam tergiversar sobre esta analogia. Todavia, este texto é a você: motorista que está à frente.

Não quero guardar rancores de ti, não o conheço, talvez tu sejas um humano legal, que pensa no bem do próximo, desde que não muito próximo de ti. Então, Chico! Posso alcunhá-lo de Chico?

Enfim, Chico, peço-te para não te deixar abater sobre nossas condutas tão putas. Aquele dedo do meio, em riste, quase intumescido, que visse colado em sua vidraça não me representa. Não concordo com ele. Vi-te cabisbaixo ao receber a homenagem.

Não, Chico! Não te sintas assim. O palavreado que ouviste ao parar no semáforo, também não me representa. Lembre-se: nem toda palavra é o que o dicionário diz. Embora, em algumas das assertivas direcionadas a ti, todas do mais alto escalão do baixo calão, lamentei não ter um lápis e um bloco de notas. Elegantes! Quase furtivas, poesia pura. Xingar sim, mas com classe! É isso aí! Pensara, o tiozinho observando a cena embasbacado.

No entanto Chico, ao abrir o sinal, tu cometestes o mesmo erro que o levou a ser homenageado. Desculpa Chico, não adivinho sua conduta confusa. Não sei se tu vais à direita ou à esquerda. Entendo-te! É complicado. São muitas opções. Um horizonte abriu-se à frente. Sua escolha pode levar-te a um caminho nunca antes observado. Mas Chico, peço-te! Ao descobrir o verdadeiro sentido das coisas: dê, dê mesmo, com gosto, com amor, com paixão, com voluptuosidade.

 

Na praia do destino

Por França, Ivanir

Vezes outrora, dias atrás a odiei. Vagando em seu âmago a destei. Tu dizias: na praia do destino, vem na areia descansar. Não a ouvia. Não queria ouvir-te. Enfim, minha razão sobressaía à lógica.

Tu eras lascívia. Corrias e girava e foi-se pela trilha, soprava de terral. Linda esnobava das minhas incandescências. Como eu a odiei. Prometi deixá-la! Tal qual, prometera Camille deixar Paris. E fiz, e fiz. Durante algum tempo, houve sentido à recusa.

Não obstante, houve o tempo. Ah, o tempo. A saudade apertou! Queria ter-te novamente. Suas curvas, suas retas, seus erros e seus acertos. Seus “pits” temporais. Atemporais, faziam falta. Lembrei-me: julgava ter perdido horas, dias olhando o horizonte de seu semblante e tu nunca respondias. Como estava errado.

Tu, em sua sabedoria, sabias! Quem vê-te assim, um pedacinho de terra, perdido no mar. Nunca poderá deixar-te. Não há tijolos rosas de Toulouse, nem portais, danças ou flores.

Tu apenas esperas o momento.

E ao chegar. Tu és calma. Apresenta, mais uma vez, a moça faceira, a velha figueira e a rendeira. E sem rancor, dos disparates atirados a ti, abres ao olhar: tua lagoa formosa, ternura de rosa, poema ao luar, cristal onde a lua vaidosa, sestrosa, dengosa, vem se espelhar.

Cotidiano

Por França, Ivanir

Histórias reais de uma cidade irreal

CotidianoPândega é uma terra erma, exígua e incrivelmente quente. Fundada em 1860, está localizada geograficamente no segundo estado mais ao sul, e, 20 milhas ao norte da ilha d`Esbórnia.

Pitoresca, a vila não possui muitos atrativos, o que torna o local pesaroso, chato e brega. Sua população, na maioria orgulhosa, despende a maior parte de seu tempo em xingar outros concidadãos no trânsito. Um dos principais passa tempos pandegueses.

Entre as peculiaridades do cidadão de Pândega está a incrível capacidade de locomover-se em verdadeiros aparelhos de som ambulantes. Estes geralmente a uma distância de 3cm do chão. Contudo, o principal passatempo dos pandegueses é utilizar termos literários, únicos em seu dialeto, para entoar jargões que apaziguam o recalque que sentem das duas capitais próximas.

Extremamente inteligentes os citadinos, além dos jargões, os xingamentos e os aparelhos de som ambulantes que alcunham de carro, furtam-se em  futricar e reclamar de tudo o que acontece na vila. Atividade essa causadora de furor nas principais redes da cidade. Há, até mesmo, grupos organizados que constroem teorias e discussões com centenas de comentários que não tem significado algum, exceto, claro, alavancar o ego dos debatedores. Alguns destes denominam-se tão importantes que constituem a lista dos seres mais inteligentes da Academia Pândega de Ciência, Letras, Cultura, Matemática, Surrealismo, Física e Qualquer outro tipo de ciência já inventada ou ainda não descoberta pelo Homem (APCLCMSFQH). Esses cidadãos possuem a mente tão avançada que conseguem traçar uma linha científica atemporal lógica entre o momento exato do cocô de uma mosca e o impacto que o ato causa na vibração da 3ª Corda do planeta Zaphod. No entanto, alguns obliterados moradores de Pândega, não entusiastas das rodas de reclamação, contestação, debates, charges e discursos – infindáveis de como a vida seria melhor se a curva da direita virasse à esquerda – alcunham os membros da APCLCMSFQH apenas de Zés Ruelllas. Assim mesmo com três Ls.

Segundo o ministério da saúde de Pândega, o Zé ruelismo já estaria extinto caso não houvesse a APCLCMSFQH. Estudiosos do Zé ruelismo atribuem aos fundadores da academia o surgimento dele. Para o ministério, não há uma data oficial do surgimento dos primeiros casos, apenas relatos dos primeiros casos à chegada de alguns estrangeiros, vindos do além mar. Relatórios da contra-inteligência da Polícia de Pândega apontam: esses senhores propagaram o Zé ruelismo em escolas e faculdades da vila. Todavia, ao passar do tempo os casos foram esmaecendo, restando apenas os membros da APCLCMSFQH como hospedeiros originais da praga. 

Trecho 1

O Legislador

Um dos membros mais ínclitos da APCLCMSFQH auto proclama-se: O Legislador. Eleito com poucos votos, algumas ameaças, beijos em idosos e criancinhas – estas em tratamento químico para limpar suas memórias do ocorrido. O legislador possui as feições de um porco estrábico, estética que rendeu-lhe a alcunha de Napoleão, contudo, iletrado, ele não preocupa-se, pois acredita que o adjetivo, direcionado a sua pessoa, é uma comparação ao “saudoso” imperador francês.

Embora acéfalo, o legislador foi agraciado com uma cadeira cativa na APCLCMSFQH, pois dentre os imortais é um dos principais propagadores do Zé ruelismo. Em Pândega ele não é muito bem quisto, porém garante que trouxe benécis à vila. Desde sua chegada houve até mesmo mudanças na língua local, algumas palavras complicadas foram alteradas por ele. E atualmente não há mais necessidade de pronunciar ou escrever o R na palavra PROGRAMA.

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